Por: Maurício Machado

 

O tempo, invariavelmente, passa. Alicerça, esta premissa, minha escrita.

Daqui há quarenta anos eu terei, com sorte e se a matemática me permitir, exatos setenta e sete anos. Sobre mim reinarão anos de experiência e há quem dirá que velho estarei. Assim como os leitores que agora passam por minhas linhas, seus olhos. Um velho atleticano. Indago-me: Onde estará o já velho e combalido estádio Antônio Accioly? Morada atleticana no epicentro campineiro.

Não temos ainda a faculdade de pressagiar o futuro e portanto, não podemos sintetizar resposta plausível para esta indagação. Formularemos hipóteses, mas nada garantirá a certeza do futuro. Porém, nos és garantida a visão de futuro, herança grega. O espaço, solo sagrado por onde chuteiras singraram gramados e corações rubro negros, há de existir por muitas eras. Já as edificações, não. Estas perecerão às intemperes naturais e ao característico desmazelo humano. O que meus olhos veem hoje, poderão não ver daqui a quatro décadas. Direi, enquanto transeunte da confluência entre a Av. Perimetral e a Rua P. 25, a quem por ventura estiver a me acompanhar: havia aqui, meu jovem padawan, um estádio e este estádio reunia corações de incontáveis credos e origens, do coração do bêbado e seu tambor retumbante ao coração do opulento e emblemático vendedor de tijolos.

Neste estádio, um time viveu suas glórias. Este time fez a mais variável sorte de corações pulsar no mesmo ritmo. De glórias e de tristezas. Mas não há glórias se não há passado! Não há presente que não tenha sido profundamente alicerçado no passado! E não há, atleticanos, futuro a quem o semeia ao vento.

O tempo passa e as coisas evoluem. Tudo evolui. Inclusive o futebol e suas arenas. Reverenciar o passado e preservar nossas memórias é algo que mantém viva a chama do torcedor. Mas uma nação que quer garantir sua existência no futuro precisa agir agora e se necessário for, romper com paradigmas.

Questionado fui, por um velho amigo rubro negro, sobre o tema. Maskote – lhe disse – preciso pensar com calma, pois minha cabeça e meu coração não conseguem produzir em um momento de dor. Mas escrever por ela, que é uma atleticana e por quem meu coração pulsa de amor, alivia-me de sua inesperada partida. Ela não deixou de existir, apenas foi torcer por mim e pelo Dragão das arquibancadas do plano superior.

Partilhamos juntos apenas um jogo e ela gostava sempre de me ver com a camisa amarela do Atlético. Não há dor maior neste mundo do que perder aquilo que veneramos como a causa de nossa existência. O amor é a força maior que une o amante e a amada. Nós torcedores, humildes ou abonados, amamos o nosso time como iguais. Aqui, neste plano, independente da quantia que carregamos na gibeira, pulsamos nossos corações pelo Atlético de maneira democrática.

Aprendi, da forma mais intensa, que não há como voltar ao passado. Temos que olhar para o futuro e começa a plantar a semente que, frutificada, garantirá a nossa existência como time quando septuagenário eu for. E vou quebrar barreiras e dizer que não podemos temer a mudança, pois na essência que corre em nossas veias seremos sempre Atleticanos.

Campinas tem seu apelo comercial, é rota do rico e do pobre que consome, com seus vinténs, toda sorte de produtos e serviços oferecidos nestas cercanias. Da pinga e quinquilharia chinesa ao uísque e carro importado. Shoppings brotam como cupinzeiros em pasto nesta desembestada Goiânia e o consumidor quer a segurança e o ar condicionado que estas babilônias consumistas oferecem. Esta é a tendência do capitalismo, meu camarada socialista, Maskote. A sua face cruel. E como vivemos sobre a égide inescrupulosa do capitalismo, porque não usarmos isso a nosso favor?

Infelizmente, o romantismo futebolístico chegou ao fim. Raros já são aqueles que beijam um escudo de um time com amor verdadeiro. Beijam hoje e se o soldo atrasar, agradecem com uma cusparada fétida no amanhã. A um dilema chegamos.

Os saudosistas abominam a ideia de erguer, na área onde situa-se o Accioly, um centro de compras. Um Shopping Center pra quem não sabe o português. Para alguns soa como uma heresia. Ao mesmo tempo em que defendem a reconstrução do acanhado, porém não menos acolhedor, estádio Antônio Accioly.

Amigos, qualquer ameba ou protozoário sabe que um time de futebol não vive somente de renda de estádio e que o orçamento nem sempre conta com recursos de fontes fidedignas. O Atlético precisa diversificar a fonte de suas receitas para garantir sua existência e não sucumbir. Não queremos virar um moribundo Goiânia e muito menos um Guarani. Estes times, assim como aconteceu com os dinossauros, vão se extinguir quando o coração de seu último torcedor pulsar pela última vez.

É hora de mudar e olhar para o futuro e aproveitar a oportunidade que nos é concedida. Qual será o atleticano que capitaneará esta mudança? Meu xará? Talvez. Será o bêbado, que pressiona sua face no buraco da tela, ao sustentar seu corpo com os braços esguios erguidos e ancorados pelos dedos ossudos no arame enferrujado do alambrado, apenas para ver melhor seu ídolo em campo? O bêbado? Talvez. O apaixonado professor que tenta desesperadamente, em uma jornada quixotescamente parca, reformar o que é irreformável? Provavelmente não. Não este. Digo-vos: Esta mudança tem que nascer no âmago de todo atleticano. Inclusive naquele que não tem a visão de futuro. Diversificar a renda e garantir a existência. Não entrarei em detalhes arquitetônicos ou de onde sairá a verba para erigir tal estrutura. Esta é uma discussão posterior.

Na área onde situa-se o Antônio Accioly há como coexistir um Shopping Center e um estádio moderno (que doravante serão respectivamente conhecidos como Dragão Shopping e Caverna do Dragão Arena), além de um estacionamento subterrâneo. Poderemos, por exemplo, alugar o estádio para todo tipo de evento cultural, tais como shows de rock pesado, rock leve, rock nem leve e nem pesado, shows bregas, shows sertanejos, shows do Frank Aguiar com chopp zero oitocentos pra comemorar o caneco, repetir o show da Shakira, alugar para cruzadas evangelísticas, para vender lote no céu, com os maiores charlatões do Brasil e tudo mais o que a imaginação inventar. Como tenho essa convicção? Porque isso já existe. Não temos que inventar nada. Miremos em bons exemplos e vamos copiá-los.

Um time de Belgrado, capital da Sérvia, chamado FK Vozdovac, levou o lema “futebol é negócio” a fazer sentido quando inaugurou seu estádio para 5200 apaixonados torcedores, pasmem, no quarto andar de um shopping center! Suposições ficam a posteriori, pois a arquitetura há de mensurar o que de fato dá para se fazer nos metros quadrados do Accioly. E que desculpas para o sufocamento urbano sejam exigidas de quem subtrai, através do mandato, valores para aprovar a construção, como por exemplo, do Godzilla de concreto que o rei da carne com hormônios pretende erguer na Little Mouse Square. Parafraseio-me: Shoppings brotam como cupinzeiros em pasto nesta desembestada Goiânia.

Goiânia é uma cidade planejada. Mal planejada. Mas isto é uma outra discussão. Derrubamos o Velho Olímpico e o tempo apagará as lembranças do passado e agora nos perguntamos: quando o Novo Estádio Olímpico, outrora um berçário da dengue, responsável por microcefalizar os nossos eleitores (os que reelegeram quem derrubou o velho estádio), ficará pronto? Quando inaugurado for, já terá anos! Independente disso, servirá aos Atleticanos e aos nossos rivais. E provavelmente, muito em breve, será depredado pelas nossas ordeiras e carinhosas torcidas organizadas.

É por isso que o Serra anda vazio e vazio, não tem utilidade. Orgulho do passado e obsoleto no presente. Mal agradecidos com o Velho Serra somos. Onde deveria haver alegria aos domingos, há somente o escuro. O Serra anda vazio porque você, torcedor, não sabe sequer se vai chegar vivo ao estádio, quanto mais voltar pra casa. E se lá chegar, será obrigado e se sentar na caca de pombo e pagar caro pra beber cerveja quente misturada com baba de garçom. A casa de cada time é mais segura para seu torcedor e é por isso que ali ele se sente acolhido nas partidas de menor proporção. A casa é pequena, mas cheia é mais divertida.

Voltemos ao nosso Accioly. Quais as consequências de se agregar produtos e serviços a uma partida de futebol? Muitas e nem posso conceber todas. Mas concebo a primeira. O custo e a consequente segregação. E sabem quem serão os maiores prejudicados? Os torcedores labutados da Campininha. Os que cruzam de sol a sol no labor para sobreviver e que na angústia da paixão pelo time e a fome que assola o estômago preferem ouvir do lado de fora o jogo saboreando nacos de carne de procedência duvidosa, grelhada em sobras de carvão vegetal velho, embebidos em molho picante feito com sobras oriundas de outros recipientes variados, salpicados de farinha de puba, farelo ou quirela e servidos transpassados por um graveto de bambu igualmente torrado. Uma mão no rádio, quando tem, e a outra no espeto, quando tem também. Quantas vezes ajudei com “pratinhas” os menos favorecidos a bancarem seus ingressos na porta do Accioly? Muitas.

Todos os times tem torcedores pobres e isso não é uma exclusividade do Atlético. A maioria do povo brasileiro, infelizmente, ainda é pobre e se farta do ópio chamado futebol. Este é o lado ruim da evolução econômica e comercial capitalista. Separar aqueles que podem daqueles que não podem. E alguém vai cantar: Tá vendo aquele edifício, moço? Eu também trabalhei lá…

O Palmeiras pratica, há tempos, preços segregadores em seus ingressos em sua suntuosa nova arena. Vejam que derrubaram o velho Palestra Itália (Parque Antártica) para dar lugar ao moderno e multi-uso Alianz Parque. Elitiza-se a torcida. Contudo, colhe-se frutos e estes levam aos títulos, ou seja, a Glória. Não deveríamos estar, Atleticanos, há anos nesta discussão. Isso já deveria ter sido planejado e sendo executado. Mas lembro-me, ao mesmo tempo, que somos ainda provincianos e profundamente arraigados às nossas tradições sertanistas e alheios as mudanças.

Somos a roça e nosso campeonato é chamado de Ruralzão. Eu, com pesar e saudosismo, prefiro ver o meu time existindo no futuro, bancado por fast foods cercados de vidros e alumínios capitalistas, do que lamentar o seu desaparecimento tendo que olhar novamente apenas para as ruínas do Velho e Velho Antônio Accioly. Ou mudamos ou iremos sucumbir. Independente da escolha, pagaremos de uma forma ou de outra.

Tudo evolui e um dia perece para retornar a natureza. O verme, homenageado por Brás Cubas, não distingue a carne do rico da do pobre. Carrego Machado no nome e machadiano tenho que escrever por minha Branca Marcela. Maskote, meu caro amigo atleticano, o Atlético precisa mudar.

Façamos um memorial e que cada tijolo retirado seja emoldurado e vendido como lembrança a cada torcedor a um preço justo para começar a financiar este projeto. Isso já foi feito antes. Não vamos vender a área do Atlético para que alguém faça um shopping lá. Vamos fazer nosso próprio shopping com uma arena multi uso dentro. Copiemos. Ousemos.

Feche os olhos e imagine o time adentrando ao gramado emergindo da profundezas da boca de uma enorme cabeça de Dragão enquanto este cospe fogo e fumaça nos céus de Campinas. Vislumbre essa imagem, Maskote! Imagina o pavor que isso causará em nossos adversários? Imagine o nosso caldeirão fervendo. A Caverna do Dragão tomada. Imagine sem nunca esquecer o passado. Pois sem ele, não há futuro. Sejamos visionários e solidifiquemos estas visões, senão o Atlético sucumbirá quando o verme roer o coração do último Atleticano.

 

Maurício Machado

 

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