Acreditei por muito tempo que o espaço desse blog seria uma espécie de ‘desafogo’ da minha vida profissional. Seria um hobby, algo bem distante do meu itinerário formativo. Ou seja, desde o começo desse ano, tinha plena certeza que esse espaço não seria para se falar de História, mas somente de futebol. No entanto, acabei sendo enganado por tal convicção, porque é simplesmente impossível a gente escapar daquilo que a gente é. Sendo assim, ‘no episódio de hoje’, vamos falar sobre Imperialismo.

O imperialismo tem suas origens lá no século XIX, quando várias ricas nações europeias passaram a aumentar os seus domínios na África e na Ásia. Para além da questão política, o domínio direto desses espaços era de suma importância para que países como Inglaterra, França, Alemanha e Bélgica pudessem obter matéria-prima e ampliar o mercado consumidor de suas indústrias. Ou seja, a finalidade central da política imperialista era consolidar o capitalismo através da dominação política de territórios afro-asiáticos.

Apesar dessa finalidade ser a própria justificativa fundamental do imperialismo, a necessidade de se explorar os povos africanos e asiáticos não se limitava aos fatores de ordem econômica. Do ponto de vista cultural, os europeus explicavam – por teses claramente racistas – que eles precisavam realizar tal dominação, já que, sem isso, lugares como a África e Ásia estariam fadados ao ‘atraso’, à ‘barbárie’ e à ‘selvageria’.

Em termos históricos, é farta a documentação que mostra esse tipo de justificativa para o imperialismo. São romances, poemas, tratados, matérias de jornal e documentos oficiais que expressam tal ideia. Entre todos, ficou bastante famoso o poema ‘O fardo do Homem Branco’, do poeta britânico Rudyard Kipling (1865-1936). O poema diz que o fardo desse homem branco seria o de enviar (para a África e para Ásia) os seus ‘melhores filhos’ para lidar com o ‘povo agitado e selvagem’; ‘metade demônio, metade criança’.

Tal olhar de superioridade em relação ao outro parece coisa lá do século XIX, que de tão distante, dificilmente reverberaria na aurora do século XXI. No entanto, parece que essa é a premissa que guia o olhar de Adson Batista ao falar do torcedor atleticano. Ao invés de ser valorizado, visto como um patrimônio imensurável do clube, o torcedor parece um fardo. Parece um ‘demônio agitado’, uma ‘criança selvagem’ que jamais terá a capacidade de entender minimamente o que é estar à frente de um clube de futebol.

É claro que a administração é uma ciência complexa e que não compete a qualquer um dominá-la por meio de uma série de achismos. No entanto, esse fato não é suficiente para que – no caso de um clube de futebol – o domínio dessa ciência seja desculpa para tratar de forma menor aqueles que passam horas, dias, anos… uma vida inteira torcendo pelo Dragão. E digo isso pela seguinte questão: será que os torcedores que defendiam a manutenção do jogo contra o Flamengo em Goiânia estavam simplesmente ‘chiando’, como afirmou Adson Batista?

Sei que muita gente vai falar que isso é ‘mimimi’, mas não tem como a gente entender o que uma pessoa fala sem levar em consideração as palavras que escolhe para se expressar. O ‘chiado’, por definição, nada mais é que uma massa sonora incômoda, desprovida de ordenamento e incapaz de expressar uma ideia minimamente compreensível. Seria justamente o oposto da capacidade de refletir, organizar e desenvolver um pensamento. Quem ‘chia’, não costuma pensar.

Ao fazer essa análise, começo a entender melhor porque se torna conveniente rotular o torcedor atleticano como um sujeito que não apoia o time. Começo a entender também o quanto é confortável dizer que um clube de oitenta anos tem somente ‘mil torcedores fiéis’. Começo a entender também porque não temos um programa de sócio-torcedor. Quando o torcedor e, principalmente a sua voz, são tratadas como um fardo, é muito fácil de entender como os argumentos e ideias desses torcedores ficam reduzidos à qualidade de ‘chiado’.

Como diz um ditado por aí, ‘o demônio mora nos detalhes’.

Fonte: ESPN FC Atlético Goianiense

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